20 de agosto de 2008

chupistas



O discurso da subsidio-dependência entrou de rompante no desporto, a pretexto dos “decepcionantes” resultados dos portugueses nos Jogos Olímpicos.

Calejado com as discussões a propósito da criação artística, pensava que o desporto estaria a salvo, dada a sua capacidade de gerar mobilizações e emoções colectivas. Se o facto de a questão se levantar num cenário de supostos “maus resultados” parece, por um lado, confirmar essa impressão (tivesse havido mais medalhas e nem se falava no assunto), por outro, esta preocupação com o dinheiro "mal empregado" evidencia a confusão habitual, sem que se discuta o papel que o Estado deve desempenhar no apoio a certas actividades.

No caso do desporto, será útil distinguir dois tipos de apoio substancialmente diferentes, tanto nos fins que os justificam como nos meios a que recorrem: o apoio à formação e à prática amadora e o apoio ao desporto de alta competição, preferencialmente profissional, em áreas onde "o mercado" não consegue garantir a subsistência dos praticantes.

Ambos têm em comum, no entanto, a noção de interesse público: por algumas razões se entende que é do interesse geral apoiar a prática desportiva. Não será sério dizer que o dinheiro aplicado é muito ou pouco sem pensar nessas razões, pois só assim se poderá discutir se os objectivos estão ou não a ser cumpridos.

No primeiro caso existe um alargado consenso. São conhecidos os benefícios para a saúde (no sentido amplo) que decorrem da prática desportiva e é obviamente do interesse geral que os membros de uma comunidade sejam o mais saudáveis possível. Nenhum responsável político precisa de perder muito tempo a justificar a construção de um pavilhão gimno-desportivo ou de um piscina, como não são normalmente contestados os apoios aos clubes que asseguram, face às insuficiências do sistema de ensino, a formação desportiva dos jovens.

Já a alta competição, contudo, presta-se a equívocos. Como se vê pelos discursos que por estes dias se vão lendo, há a ideia de que o Estado paga para que os atletas tenham vitórias. O único interesse público deste apoio, seria dar alegrias às pessoas – desportistas e espectadores. Embora não despiciendo, este objectivo é francamente pobre. Por um lado, porque as vitórias são sempre individuais ou de um grupo restrito e não faria sentido ter todo um país a financiar o prazer particular. Por outro, porque, no que respeita aos efeitos colectivos dessas vitórias, eles são pouco mais do que entretenimento – um valor importante mas que não justificaria, independentemente dos montantes em causa, o entendimento deste sector como uma área específica do investimento público.

Há-de haver, portanto, outras razões, para que se financie a alta competição. A visibilidade e o reconhecimento internacional do país é um deles e tem efeitos tanto no reforço dos laços de identificação entre os cidadãos, quanto em aspectos materiais e económicos (no turismo, por exemplo), quanto até em aspectos políticos. No plano estritamente desportivo, o interesse público da alta competição reside no aumento da visibilidade de desportos menos mediáticos e no incentivo para que mais pessoas os conheçam e possam vir a praticar – basta pensarmos quantas vezes nos lembramos, fora dos grandes eventos internacionais, que em Portugal também se pratica remo, badminton ou lançamento do martelo. Ao amplificar e diversificar o conhecimento das pessoas sobre a prática desportiva, a alta competição assume-se como um reforço fundamental da formação e da prática amadora, facilmente aceites como merecedoras do apoio estatal, complementando o investimento directo que é feito nessa área.

Não são necessárias medalhas para cumprir nenhum destes objectivos – quando muito, ajudam a que eles sejam alcançados. Os resultados da competição não são, por isso, a essência do interesse público do desporto. Se, dado o carácter limitado dos recursos, é admissível que eles sejam um dos elementos a ter em conta na hierarquia dos apoios a conceder (entre outros indicadores e devidamente ponderados de modalidade para modalidade), e sendo o objectivo e o incentivo que motiva os atletas, eles não podem ser encarados com um fim em si pelo Estado, sob pena de se desvirtuar a razão de ser do apoio público.

Faz assim todo o sentido que o Estado português não só mantenha como reforce o investimento no desporto em Portugal. Não para que suba mais uns lugares no ranking das medalhas olímpicas, mas para que haja cada vez mais gente a praticá-lo de uma forma lúdica e cada vez menos amadores a quem é exigido “profissionalismo”.

E mesmo assim, permito-me alertar, continuaremos sempre a ter atletas com um discutível sentido de humor, atletas com dias azarados e até alguns incompetentes. Nada de diferente do que se passa noutros sectores; nada que dê autoridade nem aos concidadãos para arrasar uma classe inteira, nem aos decisores políticos para deixar de considerar, a sério, esta área de intervenção.

3 de abril de 2008

As flores

Era preciso agradecer às flores
terem guardado em si, límpida e pura,
aquela promessa antiga
de uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen,
No tempo dividido, Lisboa: Caminho, 2005 (4ª ed.).

25 de março de 2008

inocência

O algarve o pingo irritante de um autoclismo avariado numa casa de banho acanhada de um apartamento empenado com vista para a relva seca do mini-golf abandonado onde dois pinheiros mansos, ao jeito de palmeiras exóticas, quase cobrem o inocente mar azul.

O algarve um restaurante apinhado de gente nervosa logo pela manhã fingindo-se feliz pelo ovo estrelado com vista para as espreguiçadeiras enquanto se esquece da fila na auto-estrada e do cheque para a agência e da hipoteca da casa e já quase nem repara que lá em baixo o inocente mar azul.

O algarve um hotel decadente a dizer excuse me para se armar em fino, oferecendo-nos uma praia roubada e promessas de requinte, a despeito do tecto falso meio pendurado, da tijoleira gasta, do piso escorregadio, da arrogância da gerente, das máquinas de flippers e do snooker de moedas, de onde já nem se vê o inocente mar azul.

O algarve uma sucessão de rotundas decoradas e esplanadas mal dispostas e carros sobrepostos e anúncios luminosos prendas gifts happy hours larger beer e bolas de praia porque lá em baixo o inocente mar azul.

O algarve um país que é praia - alcatrão, cafés, areia e o inocente mar azul.

11 de março de 2008

acção

- Em coimbra, é preciso deixar as palavras e passar à acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Mas qual acção?
- A acção.

- Áh... Mas qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.

- A acção?
- Sim, a acção.
- Mas qual acção?
- A acção.