25 de março de 2008

inocência

O algarve o pingo irritante de um autoclismo avariado numa casa de banho acanhada de um apartamento empenado com vista para a relva seca do mini-golf abandonado onde dois pinheiros mansos, ao jeito de palmeiras exóticas, quase cobrem o inocente mar azul.

O algarve um restaurante apinhado de gente nervosa logo pela manhã fingindo-se feliz pelo ovo estrelado com vista para as espreguiçadeiras enquanto se esquece da fila na auto-estrada e do cheque para a agência e da hipoteca da casa e já quase nem repara que lá em baixo o inocente mar azul.

O algarve um hotel decadente a dizer excuse me para se armar em fino, oferecendo-nos uma praia roubada e promessas de requinte, a despeito do tecto falso meio pendurado, da tijoleira gasta, do piso escorregadio, da arrogância da gerente, das máquinas de flippers e do snooker de moedas, de onde já nem se vê o inocente mar azul.

O algarve uma sucessão de rotundas decoradas e esplanadas mal dispostas e carros sobrepostos e anúncios luminosos prendas gifts happy hours larger beer e bolas de praia porque lá em baixo o inocente mar azul.

O algarve um país que é praia - alcatrão, cafés, areia e o inocente mar azul.

11 de março de 2008

acção

- Em coimbra, é preciso deixar as palavras e passar à acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Mas qual acção?
- A acção.

- Áh... Mas qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.
- Qual acção?
- A acção.

- A acção?
- Sim, a acção.
- Mas qual acção?
- A acção.

12 de novembro de 2007

limpar


Antes de te decidires a contratar alguém para limpar o pó, experimenta fazê-lo ao som da Ute Lemper.
Vai alma e tudo.

8 de novembro de 2007

sintoma



Numa entrevista sobre um novo festival de cinema (Alexandra Lucas Coelho no Público de hoje), passa-se um terço do espaço a falar de outros dois festivais. Ainda bem que o entrevistado é o Paulo Branco.


Tanto o Indie como o Doc têm salas cheias, cobertura de imprensa constante, e têm provado que há um público a ser formado.
Não forma nada, zero.

O facto de 32 mil pessoas se terem distribuído por 300 filmes?
Não forma. É um erro, os festivais não formam um único espectador. O que forma é um trabalho sistemático da exibição comercial, da crítica. Os festivais nunca formaram. São eventos, em que o público vem como se viesse para uma festa, mais nada, em que consome, como se consome nos supermercados...

[...]


O Indie e o Doc têm autocarros, metro, táxis.

Aqui também. Não tem dificuldade em chegar ao Estoril, que eu saiba.
Espero que o público possa usufruir deste acontecimento. Agora não estou aqui em competição de números. E acho dramático que se comece a analisar a qualidade dos festivais pelo número de espectadores e filmes passados. Então vamos para os supermercados. Prefiro ter filmes de enorme qualidade com menos público do que fazer, desculpe lá, os Corrupções mundiais e ter isto cheio.

[...]

O que é correr bem?
Que os filmes estejam cá, que sejam projectados, que haja discussão. Mas se continuamos uma análise fria de números, então matam o cinema, acabou. Voltemos às origens, vamos discutir o essencial. Só espero que neste país ainda haja interesse por isso. Se não houver, o problema já não é meu.


Pois não, Paulo. É nosso.