5 de fevereiro de 2007

desonestidade

Kurt Halsey Frederiksen, Honesty honestly


Um deputado da nação acusou o meu amigo de desonestidade intelectual.
Fê-lo num daqueles debates de província nos quais gosta de participar ao fim-de-semana, exibindo a retórica que se aprende e exercita na capital civilizada. Fê-lo com o ar grave e sério de quem condescende em sentar-se na mesma mesa com seres visivelmente inferiores mas de quem não tolera abusos, libertinagens ou quaisquer faltas de respeito à sua imperiosa posição.
Pouco habituado ao convívio tão próximo com as artes da deputice, fiquei, confesso, embaraçado. Então o meu amigo, que eu até admirava, era, afinal, um "desonesto-intelectual"? Ou seria um "intelecto-desonesto"?
Se fosse só desonesto, a coisa não me afligiria muito. O que me intrigou foi que o acusassem de o ser do ponto de vista intelectual. Pus-me a pensar nos outros tipos de desonestidade. Se, por exemplo, eu me levantasse da cadeira e, fingindo que ia cumprimentar o senhor deputado, lhe desse um murro nos queixos, seria, concerteza, um caso exemplar de "desonestidade física". Se, por outro lado, o senhor deputado pudesse imaginar o que penso dele enquanto o fito e finjo escutar com este notável ar sereno, estou certo que me acusaria de "desonestidade psicológica". Se, cansado da sua oratória, abandonasse a sala para ir à casa de banho, estaria a praticar uma vergonhosa "desonestidade fisológica". E estas voltas no estômago ao ouvi-lo? Serão os primeiros sintomas de uma "desonestidade gástrica"?
Pois que sejam. Naquela acusação, o que contava mesmo era o termo intelectual. Na cabeça do senhor deputado, era aí que se estabelecia a diferença entre ele e o meu amigo.
O meu amigo, desmentindo a acusação de desonestidade, resistiu a responder-lhe na mesma moeda. Na verdade, nunca ninguém poderá afirmar, honestamente, que aquele deputado é um intelectual.

mães

Frida Kahlo, 1932, Henry Ford Hospital


No calor do debate, a senhora do não veio dizer-nos que esta não é uma discussão a preto e branco. Estamos de acordo: esta discussão, como a pergunta a que se conseguiu chegar, é até bastante cinzenta.
Para ser a preto e branco, minha senhora, teríamos que estar a perguntar aos portugueses se concordam com a gravidez obrigatória, se concordam que as mulheres devem ser forçadas a resignar-se ao risco natural de engravidar em cada relação sexual, se alguém tem o direito de impor às mulheres uma maternidade que por qualquer razão não desejam. Se fosse a preto e branco, minha senhora, estaríamos a discutir o papel que ainda hoje a sociedade reserva às mulheres, em particular aquelas que, ao contrário de si, continuam a não ter oportunidade de usufruir do esforço daquelas e daqueles que lutaram (e lutam) pela igualdade de direitos. Se fosse a preto e branco, minha senhora, estaríamos a dizer se achamos que a maternidade deve ser voluntária ou um trabalho forçado pelo azar divino. Se fosse a preto e branco, estávamos a questionar o direito que a senhora tem de se pronunciar sobre a vida, o corpo e a vontade de outras mulheres.
Dizer sim à desconfortável pergunta que nos colocam, minha senhora, é a mais cinzenta das opções. Aceita-se até que o aborto permaneça um crime, como se um pedido da mulher em causa pudesse ser apenas mais uma excepção e não a regra, primeira e fundamental, para a continuação ou descontinuação de uma gravidez. Eu resigno-me, contudo, a esse cinzentismo, pela mais pragmática das razões: apesar de continuarem juridicamente encurraladas, que ao menos possam as mulheres que abortam fazê-lo em condições mínimas de segurança e dignidade. Talvez não seja um grande avanço civilizacional, mas é um passo. Acinzentado, mas um passo.
Já dizer não, minha senhora, é a mais negra das respostas. Porque mantém tudo na mesma, incluindo o rótulo (e as penas) de criminosas para as mulheres que abortam, incluindo os riscos que elas correm nas malhas da clandestinidade, incluindo esta coisa de não conseguirmos pensar numa mulher sem nela ver a mãe - a mãe efectiva, a mãe frustrada, a mãe egoísta, a mãe assassina, mas a mãe, sempre a mãe.
Como se o mundo, minha senhora, fosse composto por homens e... mães.

29 de janeiro de 2007

ocaso

[inoportunas lembranças]


Frida Kahlo, 1945, sin esperanza

24 de janeiro de 2007

costume

Ron Schmitt, Evening Routine, Pastel on paper, 18" x 24"



Sabia, mesmo sendo a primeira vez que nele entrava, que aquele café restaurante snack-bar viria a ser o seu poiso quotidiano por muitos anos.
Não estranhou, por isso, o panado com arroz de feijão que, com um sorriso cúmplice, o empregado lhe colocou à frente pouco depois de ter pedido
- o costume