17 de julho de 2007

promessa

Um jovem sociólogo, que hoje não tem emprego, se falar árabe daqui a três anos tem emprego.


Luis Filipe Meneses, Edição da Noite, SIC Notícias, 16/07/2007, 22:30h.

16 de julho de 2007

rodrigo

Importa lembrar que o escrevi muito novo porque, como será compreensível, não é o livro que hoje escreveria. O tempo e a distância operam uma escalada de exigência que, ao mesmo tempo que nos obriga a melhorar e a evoluir, faz descer um manto cruel sobre o que fizemos um dia, muito lá atrás.

Rodrigo Guedes de Carvalho, "Nota do autor", in Daqui a nada.



E mesmo assim é tão bom como os restantes:

agora

Rodrigo Guedes de Carvalho, Daqui a nada. Lisboa: Dom Quixote, 2006 (15ª edição)



ao fim e ao cabo que restará ainda para te contar, agora que decidiste abandonar-me de vez, agora que finalmente me morreste dentro das tripas, contar-te-ei que afinal não fui o médico que desejaste, que nunca fui o escritor que desejei, far-te-ei notar que nunca me libertei destes pólos que me estrangulam, que me obrigam a repensar tudo, nunca fui um bom médico, nunca escrevi nada, nunca fui pai, nunca fui filho, sempre fui mau marido, nunca agradei a ninguém, sobretudo a mim mesmo, sempre me arrastei entre o que sonhei e o que nunca fiz, entre o que palpita cá dentro e nunca palpitou cá fora

13 de julho de 2007

fatalidade

Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
(tradução de Dóris Graça Dias). Lisboa: Difel, 2004.


Mão amiga, como quem me embala no berço da literatura romântica, fez-me chegar o primeiro Balzac cá de casa.
Eu, novato e agradecido, deixo-me levar.
E conquistar pelo barroco, surpreender pelo trágico e sorrir com o fatalismo e a misoginia da coisa.

12 de julho de 2007

subúrbio

Lá tem Jesus
E está de costas

"Subúrbio",
in Carioca
, Chico Buarque/2006





Confesso que me mantive quase indiferente à eleição das sete maravilhas do mundo, ao ponto de só dois ou três dias antes da cerimónia ter percebido que esta decorreria em Portugal.
Para além das razões que levaram a UNESCO a demarcar-se da iniciativa (e que me parecem muito válidas), inquieta-me esta espécie de arrogância geracional, esta convicção de que podemos nós, os contemporâneos, definir o que é mais maravilhoso no mundo desde há milhares de anos.
Só por inconsciência, no mínimo, se pode fomentar a comparação entre a Grande Muralha da China e a Ópera de Sidney ou entre o Coliseu de Roma e o Cristo Redentor. Independentemente de qualquer outra discussão, o factor tempo parece-me aqui determinante. A circunstância de algumas destas maravilhas se manterem de pé e conhecidas do mundo inteiro há dois mil anos é, só por si, algo que as coloca num patamar de absoluta incomparabilidade com outras que, por marcantes que sejam, não têm sequer cem anos. Falta-lhes, a estas, a prova dos séculos para mostrarem a sua real importância na história da humanidade. Passaria pela cabeça de alguém comparar Ésquilo com Harold Pinter, ou Homero com Saramago (para só falar de prémios Nobel e, portanto, de nomes consagrados pela contemporaneidade)? Se, daqui a dois mil anos, o mundo ainda souber quem foi Pinter, se o “Ensaio sobre a cegueira” for ensinado nas faculdades do mundo inteiro, então talvez se possa começar a pensar em equipará-los.

Mas depois vieram os resultados da votação global e parece que fizeram jus aos esforços desenvolvidos pelos governos dos respectivos países vencedores – Brasil, México, Perú, Índia, Jordânia (e também a China e a Itália).
Se por detrás do investimento das autoridades nacionais estão seguramente legítimas preocupações económicas, relacionadas com o quase certo boom turístico de que passarão a beneficiar depois da eleição, isso não explica a mobilização efectivamente percebida entre muitas das populações, quer durante o período de votação, quer durante os festejos que as cadeias internacionais de televisão nos fizeram chegar.
Por pouco que seja, o facto de poderem vir a ganhar alguma coisa num mundo em que são sempre olhados como o subúrbio é sem dúvida estimulante. Não ficámos nós próprios, portugueses, orgulhosos por ver subir ao palco um conterrâneo – Cristiano Ronaldo, que, no final, receberia os cumprimentos de Sócrates e Cavaco?

Embora, do ponto de vista histórico-científico, o concurso não tenha passado de um entretenimento, apetece-me portanto olhá-lo numa perspectiva política e destacar as conclusões que, apesar de óbvias, me parece ser possível retirar daqui:
- o centro do Mundo (onde são construídas as grandes obras e se aplicam os mais avançados conhecimentos, técnicas e tecnologias de cada época) não esteve sempre na Europa ou nos Estados Unidos);
- nos países (hoje) menos “desenvolvidos” também há gente, e muita;
- esta é uma gente que sente, que pensa, que se orgulha e que se mobiliza.

Que seja preciso um concurso manhoso para nos lembrar disto, é um triste sinal dos tempos. Mas lembrá-lo é das poucas formas de não nos ficarmos pelo folclore etno-comercial deste tipo de eventos.

9 de julho de 2007

g)

Mas eu ainda hoje com essas qualidades, queres ver, eu mostro-te, vai pedir uma bica e depois, mas só depois, um copo de água, que eu tenho cara de quem gosta de andar para trás e para a frente, há-de ser isso que ele pensa, fartinho de saber que vai querer um copo de água mas por agora só

- Era uma bica, se faz favor

Eu quase a perguntar-lhe e não é melhor um copinho de água, não, ou então a decidir trazer-lhe à mesma e pronto mas depois viro-me para o ucraniano

- Sai uma bica.

e vou dar uma volta, entretanto outro casal na mesa seis, a trocar miminhos mas não como nós, se eles só pudessem imaginar

(És tão bonita)

se este, o da bica

- O seu cafezinho.

pudesse imaginar também, ele que de certeza um problema qualquer de amores, que eu bem o vi a levantar-se para a máquina dos cigarros, quase jurava que ele a falar com ela, o homem é doido, a falar com a máquina, com os cigarros, com os botões do telemóvel, só depois comigo

- Arranjava-me um copo de água?

(Eu não disse?)

8 de julho de 2007

memória

Fecha os olhos, esquece o tempo
Nesta noite sem fim
Abre os braços, acende um beijo
Fica dentro de mim
Vem, amor, a noite é uma criança
E, depois, quem ama por gosto não cansa
Amanhã, de manhã,
Vamos acordar e ficar a ouvir
A rádio no ar, a chuva a cair
Eu vou-te abraçar e prender-te, então
No corpo que é teu, na cama, no chão
Os nossos lençóis e a colcha de lã
Eu vou-te abraçar,
Amanhã, de manhã


Já me tinha acontecido com Homero, mas hoje foram as Doce, recebidas pelo Tony Silva n'O Tal Canal, a lembrar-me da pequenez do homem perante o tempo que passa.

6 de julho de 2007

riqueza


- Acha que a cultura pode gerar riqueza? Quer no sentido mais abrangente, quer num prisma mais económico?
- Gerar riqueza económica, não sei, é provável. Não me interessa nada gerar riqueza económica com a cultura, o que me interessa é gerar riqueza intelectual.

- Mas é contra esta visão mais económica de enquadrar a cultura?
- Não sou contra, mas não tem a ver com a minha actividade. Não penso nunca nesses termos, mas acredito que possa gerar riqueza.


Luis Miguel Cintra, numa entrevista muito importante.

detrás




Dizem-me que através das cartas (como de resto dos diários) se conhece melhor a pessoa que há por detrás do seu autor. Que nelas se abstém este de colocar os pós literários que distribui por outros géneros e que assim se expõe, indefeso, à curiosidade dos leitores.
Tentadora, porém pura, ilusão - parece-me. Para além de mais amarradas ao tempo e ao espaço em que foram escritas, elas oferecem-se-nos num código partilhado apenas pelos seus destinatários originais. Disfarçado de transparência, é este código não mais do que campo para especulações de terceiros sobre os reais sentimentos, razões e intenções de quem escreve. Ei-lo, pois, medricas corajoso ordinário apaixonado cavalheiro vaidoso arrogante céptico inseguro humilde inquieto brilhante solidário solitário revolucionário reaccionário, ei-lo tudo o que quisermos.
Desconhecedores desse código, ficamo-nos pela superfície das palavras que lemos, encarregues nós mesmos de esculpir os seus relevos. Ficamo-nos pela literatura.
E ainda bem.

5 de julho de 2007

quintais

Hás-de reparar.
Ali na estrada nacional um, entre Leiria e a Batalha, entre armazéns, restaurantes, stands de automóveis e cruzamentos perigosos, proliferam casas de habitação com fábricas nos seus quintais.

3 de julho de 2007

rasgo

Era um homem com tão pouco, mas com tão pouco rasgo, que até o ar deixou de poder entrar.