5 de fevereiro de 2007

mães

Frida Kahlo, 1932, Henry Ford Hospital


No calor do debate, a senhora do não veio dizer-nos que esta não é uma discussão a preto e branco. Estamos de acordo: esta discussão, como a pergunta a que se conseguiu chegar, é até bastante cinzenta.
Para ser a preto e branco, minha senhora, teríamos que estar a perguntar aos portugueses se concordam com a gravidez obrigatória, se concordam que as mulheres devem ser forçadas a resignar-se ao risco natural de engravidar em cada relação sexual, se alguém tem o direito de impor às mulheres uma maternidade que por qualquer razão não desejam. Se fosse a preto e branco, minha senhora, estaríamos a discutir o papel que ainda hoje a sociedade reserva às mulheres, em particular aquelas que, ao contrário de si, continuam a não ter oportunidade de usufruir do esforço daquelas e daqueles que lutaram (e lutam) pela igualdade de direitos. Se fosse a preto e branco, minha senhora, estaríamos a dizer se achamos que a maternidade deve ser voluntária ou um trabalho forçado pelo azar divino. Se fosse a preto e branco, estávamos a questionar o direito que a senhora tem de se pronunciar sobre a vida, o corpo e a vontade de outras mulheres.
Dizer sim à desconfortável pergunta que nos colocam, minha senhora, é a mais cinzenta das opções. Aceita-se até que o aborto permaneça um crime, como se um pedido da mulher em causa pudesse ser apenas mais uma excepção e não a regra, primeira e fundamental, para a continuação ou descontinuação de uma gravidez. Eu resigno-me, contudo, a esse cinzentismo, pela mais pragmática das razões: apesar de continuarem juridicamente encurraladas, que ao menos possam as mulheres que abortam fazê-lo em condições mínimas de segurança e dignidade. Talvez não seja um grande avanço civilizacional, mas é um passo. Acinzentado, mas um passo.
Já dizer não, minha senhora, é a mais negra das respostas. Porque mantém tudo na mesma, incluindo o rótulo (e as penas) de criminosas para as mulheres que abortam, incluindo os riscos que elas correm nas malhas da clandestinidade, incluindo esta coisa de não conseguirmos pensar numa mulher sem nela ver a mãe - a mãe efectiva, a mãe frustrada, a mãe egoísta, a mãe assassina, mas a mãe, sempre a mãe.
Como se o mundo, minha senhora, fosse composto por homens e... mães.