13 de setembro de 2006

xv

- Pois.

E entretanto a avenida, já outra, os túneis a acelerar por cima de nós, um intervalo, cada um para o seu canto, a toalha ao pescoço, meninas de fato-de-banho a dançar no ringue uma música altíssima, uma placa nas mãos

ROUND 2

só que hoje sem árbitro, os dois sozinhos num carro de praça e lá fora a cidade, alheada de nós, um soco ao de leve para mostrar quem manda

- Agora também há os do Leste

depois uma direita, ainda de mansinho

- E os brasileiros

e o golpe nos rins, este já a doer

- Só putas e chulos, é o que é.

Uma vergonha, quase vou ao tapete, não te ficas sem resposta mas só me sai

- Também há gente boa.

Surpreendentemente o taxista encolhe-se um pouco, não me esperava sequer vivo, e eu aproveito, acerto-lhe no queixo

- Antigamente éramos nós, lá fomos para a França, para a Suíça, para o Luxemburgo

pareço um martelo, fraco mas insistente

- a Alemanha, a Inglaterra. E até para o Brasil, para a Venezuela.

Ele já recomposto, a acertar-me num olho

- Não, mas isso era diferente

a levar-me para as cordas

- Nós íamos e trabalhávamos

uma direita

- fazíamos o que eles não queriam fazer

outra direia

- não andávamos lá a arranjar problemas

depois uma esquerda

- comíamos o pão que o diabo amassou.

Eu a agarrar-me às cordas, ensaguentado, a tentar levantar-me e a vê-lo de braço puxado atrás, a preparar-se para um golpe baixo

(hoje sem árbitro, a cidade alheada de nós)

a tirar-me as medidas

- Quer saber

Felizmente o telemóvel, o dele, a servir de gong, a salvar-me da morte, ele no seu canto, a limpar o suor com a toalha e a atender

- Estou.

2 comentários:

Nuno disse...

Simplesmente excelente...

Eduardo disse...

:-)